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Archive for the ‘itália’ Category

Crônica publicada no jornal Primeira Mão
Ano II, n. 4, 1998

Esta é a continuação da crônica Pequena aventura em Roma. Saí do hotel por volta das nove horas, atravessei a rua e fui tomar café na stazione Termini, a estação central de Roma, de onde partem todos os trens para o interior do país. Fica nas proximidades do Coliseu, não muito afastada do Vaticano. Depois de um saboroso cappuccino, acompanhado de um sanduíche do mais legítimo salame italiano, fui comprar meu biglietto di viaggio Roma-Ancona, com conexão em Falconara.

Logo que entrei no carro para não fumantes, tentei obter algumas informações sobre a viagem. Nas poltronas ao lado, dois casais idosos tentaram, mas não conseguiram se fazer entender. Tudo que entendi, o óbvio, era que Falconara ficava antes de Ancona. Eles diziam, pausadamente:

– Roma-Ancona. Cambiato Falconara.

Nesse momento senta um sujeito na poltrona em frente. Fui logo perguntando:

– Parlez vous Français?

– No

foi a resposta, acompanhada de um leve sorriso. Não desanimei:

– Do you speak English?

– Yes, I do”.

Que bom, pensei, agora saberei tudo sobre a viagem. Imediatamente após esse primeiro contato, o sujeito mexeu na sua mochila, consultou alguns papéis e disse que ia telefonar na plataforma. Largou a mochila na poltrona e falou:

– Voltarei em seguida”.

Fiquei apavorado. Saí do Brasil absolutamente paranóico com os atentados de terroristas islâmicos ocorridos na Europa, principalmente na França, durante aquele ano de 1995. A paranóia se instalou; não pude evitar a dúvida: e se nessa mochila tiver uma bomba? Observei-o enquanto falava no telefone; a paranóia cresceu: e se ele estiver comunicando que fez o “serviço”? Suor frio nas mãos, tensão braba, comecei a imaginar uma estratégia de reação: se naquele momento o trem partisse sem o sujeito, eu já estava pronto para dar o alarme. Relaxei quando o rapaz retornou ao seu lugar. Essa paranóia me acompanhou durante toda a viagem, principalmente na França. Qualquer pessoa com um pacote era “suspeita”. E se tivesse o biótipo argelino, pronto! Ali estaria um potencial terrorista do GIA (Grupo Islâmico Armado).

Desfeito o engano, fiquei sabendo que se tratava de um engenheiro de telecomunicações, com aparente índole pacífica e muito prestativo. Informou que existem many stops no trajeto, mas que não há qualquer cidade importante. Entre as várias cidadezinhas, destacam-se Terni, Spoleto, Foligno e Fabriano, quase todas com estações tipicamente de interior: apenas uma plataforma com cobertura. Descobri, enfim, que se tratava de um verdadeiro pinga-pinga, que leva cinco horas e meia até Falconara. Lá a parada é rápida, “few minutes”, disse-me ele. Pronto, mais um motivo para preocupação. Como eu ia me safar com toda a minha bagagem? Deverei me preparar um pouco antes, pensei. Não, nada de pânico; meu casual companheiro de viagem também descerá em Falconara, e deverá me ajudar. Assim espero! Mais uma vez relaxei e retomamos a conversa.

A certa altura da viagem aparece o fiscal para conferir os bilhetes; descobri que tinha esquecido de convalidar (em Italiano a palavra também é essa) o dito cujo na plataforma da estação. O fiscal disse algo, e o colega traduziu: “ele está perguntando por que você não convalidou o bilhete”. Respondi que tinha esquecido. O fiscal deixou prá lá, mas me repreendeu pelo esquecimento. Se ele não tivesse me liberado, a multa seria de sessenta mil liras (a passagem custou trinta mil liras).

A propósito, duas historinhas recentes sobre isso. Uma aconteceu em Rimini, com uma colega carioca. Do centro da cidade, até o local do congresso, não é muito longe; dá para ir a pé, tranqüilamente, mas ela estava com pressa, e resolveu ir de ônibus. Comprou o bilhete (seis mil liras), mas esqueceu de convalidá-lo. Surpreendida pelo fiscal, ela, que fala Italiano fluentemente, se fez de inocente e danou-se a falar em Inglês, dizendo que não tinha visto a máquina para convalidar o bilhete, etc, etc. Os fiscais, que provavelmente não estavam entendendo nada do que ela falava, começaram a falar “polizia”, “polizia”. Foi aí que ela entendeu que não tinha qualquer chance, e rapidamente começou a perguntar, sempre em Inglês, quanto era a multa. Pagou, sem direito a choro, a bagatela de sessenta mil liras. Ficou brabíssima!

A outra história me foi contada por uma garota (gaúcha) que conheci no Galeão, no dia que estava voltando (3/12/95). Ela fazia uma viagem entre duas cidades italianas; não lembro quais. Quando percebeu que tinha esquecido de convalidar o bilhete, correu para dizer ao fiscal, antes que este iniciasse seu trabalho. Resposta: “como você se declarou culpada, vou cobrar apenas dez mil liras de multa, ao invés dos sessenta mil”.

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Texto revisado em 22 de agosto de 1998

No trem Ravena-Bolonha, procedente de Varsóvia, gente humilde que varou a noite naquelas poltronas de 2a classe. Um forte e insuportável cheiro de urina nos corredores. Com o pensamento viajo para longe; penso em Areia Branca, Natal, Porto Alegre, mas o mal cheiro não arreda o pé. Felizmente o trajeto é curto.

Em população, Bolonha é bem menor do que Natal, mas o maior desenvolvimento econômico é visível. Na estação de trem peguei um ônibus para o aeroporto Marconi, que é bem maior do que o nosso Augusto Severo, mas não tem um relógio para nos orientar, e o bar é menor do que o nosso. Leio, num jornal local (il Resto del Carlino) que Dirceuzinho (ex-ponta direita da seleção brasileira) morreu num desastre automobilístico no Rio. Pela matéria, percebe-se o cartaz que ele tinha por aqui.

Fizemos o trecho Bolonha-Milão num desses aviões pequenos que os europeus costumam usar nasviagens domésticas. Um pouco de balanço, mas nada grave! Milão tem uma população assim como a de Porto Alegre, mas um aeroporto quase igual ao Galeão, com um enorme free shop. Fim de verão, aeroportos abarrotados de gente voltando das férias; vôos atrasados, frio na espinha. Chegar em Lyon tarde da noite, para quem vai para Grenoble é um horror! Não deu outra, o vôo só foi sair depois das 22 horas, chegando em Lyon depois das 23 horas. Quando cheguei na plataforma de ônibus, perdi o último que saía para Grenoble. Um estudante na mesma situação, propôs dividirmos um táxi; quinhentos francos para cada um. Uma nota preta!

No dia seguinte, um domingo, dei uma volta pelo centre ville para matar a saudade: praça Victor Hugo, praça Grenette, rua Félix Poulat, boulevard Gambetta, avenida Alsace-Lorraine, … “Grenoble” que o visitante menos avisado percebe, não é Grenoble; é a região grenobloise, um conjunto com mais de quinze cidades, de tal modo interligadas que mais parecem bairros de Grenoble. Essa região, com uma população da ordem de quinhentos mil habitantes, tem maravilhosos recantos montanhosos e estações de esqui.

Não dá para descrever aqui, com razoável detalhe, toda a região grenoblense, mas talvez seja interessante destacar alguns aspectos histórico-turísticos. Por exemplo, pouca gente sabe que a Revolução Francesa nasceu numa reunião no castelo de Vizille (uma cidadezinha a 15 km de Grenoble), no dia 21 de julho de 1788; portanto, um ano antes da data que se comemora.

Curaro, uma pequena vila gaulesa, transforma-se em Grenoble depois de conquistada pelos romanos, bem antes do nascimento de Cristo. Cidade natal de Stendhal, autor de Le Rouge et le noir, Grenoble é também a cidade por onde passou muita gente importante. Em 1768, Jean-Jacques Rousseau tentou repousar aqui anonimamente, com o pseudônimo de Monsieur Renon, mas foi logo reconhecido, e bem acolhido e paparicado pela população, então mais do que provinciana. Hector Berlioz, na primeira metade do século dezenove, teve aqui uma ardente e não correspondida paixão.

O Vercors, uma bela região montanhosa ao lado de Grenoble, e que teve trágico e importante papel na resistência francesa durante a segunda guerra mundial, é hoje um ponto turístico imperdível, com algumas estações de esqui, várias grutas e verdadeiros túneis naturais, que os franceses chamam de gargantas (gorges). Um passeio, promenade, como dizem os franceses, numa manhã de outono em Villard de Lans, é algo deslumbrante. A primavera tem uma incontestável beleza visual, mas o bem-estar de uma amena manhã outonal é incomparável. Villard de Lans é a capital turística do Vercors.

Nos tempos modernos, Grenoble se destaca pela sua vocação para os empreendimentos tecnológicos. Foi aqui que, na segunda metade do século passado, se descobriu a energia hidroelétrica (houille blanche), e é aqui que acabou de ser construído o sincrotron mais potente do mundo, um monumental equipamento para pesquisas em ciências dos materiais. Depois de Paris, Grenoble é o pólo técnico-científico mais importante da França.

Aproveito a oportunidade de estar em Grenoble para fazer uma visita a Annecy, situada ao norte, nadireção da Suiça. Na verdade, mais próxima de Genebra do que de Grenoble. Já não sei mais quantas vezes visitei essa aprazível cidadezinha. Venho aqui só para perambular pelas suas ruelas e em volta do seu azulado lago. Em companhia de Luis e Carla, um casal de amigos paulistas, festejo meu aniversário neste 7 de outubro, mesmo dia em que os colonos da região comemoram o retour des alpages, uma festa que enche a cidade de visitantes para saborear a comida savoyard, comprar produtos artesanais e assistir às manifestações culturais (canto e dança) desse simpático povo.

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Texto revisado em 29 de abril de 2008

Como disse na crônica Congresso em Rimini, na Sexta-feira, 15/09/95, dei por encerrada minha participação no congresso e parti para Ravena. A 50 quilômetros de Rimini, e a meia distância entre esta e Bolonha, Ravena, com menos de 150 mil habitantes, tem traços históricos romanos e bizantinos a cada esquina. Não sei como ela fica durante os meses de inverno, mas agora, no fim do verão, é uma maravilha; botando gente pelo ladrão; uma animação que dá gosto! Ravena é mais conhecida pelos seus mosaicos (considerados os mais espetaculares da Europa), mas, além de outros registros históricos importantes, é preciso não esquecer que essa é a cidade onde, há mais de seiscentos anos, morreu Dante Alighieri, o famoso poeta italiano, autor de A Divina Comédia.

Traços do Império Romano vêm lá do ano 404 dessa era cristã, quando Honorius abandona definitivamente Roma e decide instalar o Império em Ravena. Em seguida, Galla Placidia, irmã de Honorius, governa com todo a pompa romana, até que em 476, o rei godo Odoacre toma-lhe a cidade. Do ponto de vista estético, dois monumentos chamaram-me a atenção: a basílica de San Vitale e o mausoléu de Galla Placidia. Do ponto de vista histórico, emocionou-me chegar próximo ao túmulo de Dante, e visitar, ao lado, o Museu Dantesco, onde encontram-se belíssimas e antigas edições das suas obras.

A basílica de São Vital é um exuberante monumento arquitetônico, onde a pompa e a engenhosidade nos oferecem um momento de êxtase. Construída sob a forma octogonal, essa igreja guarda parte da magnífica arquitetura bizantina, e uma esfuziante coleção de mosaicos coloridos. Visita imperdível. A foto ao lado foi extraída de http://www.colegiosaofrancisco.com.br/alfa/imperio-bizantino/museu-bizantino.php

Próximo à basílica, o mausoléu de Galla Placidia é igualmente inebriante. Trata-se de uma pequena construção em forma de cruz, com aparência externa simples, mas que guarda no seu interior uma maravilhosa coleção de mosaicos. A cena do bom pastor é de uma beleza emocionante.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_paleocrist%C3%A3

Depois desse banho cultural, fui até um café na piazza del popolo saborear um capuccino, que na Itália tem um sabor todo especial. Eles não colocam creme de chantilly , apenas a gordura do leite, depois de passar na máquina de café expresso, fornece a aspecto e o sabor cremoso. Aliás, para quem não sabe, o café expresso na Itália é fortíssimo, ocupando um terço de uma xícara de cafezinho. Muita gente coloca água; é o que eles chamam de café americano, ou café com acqua calda.

(Foto extraída de

http://picasaweb.google.com/fuadcurcic/RavenaItaly/photo#5111579301390069826)

Fiquei perambulando e curtindo as surpresas a cada quarteirão. Entrei numa ruela e vi duas jovens com flautas transversa, um jovem com oboé, e um outro jovem com um órgão elétrico, executando algo ao estilo de Bach (não conheço as músicas executadas). Três números depois eles foram substituídos por outro jovem conjunto (quatro rapazes): uma flauta transversa, dois violinos e um violoncelo. Tocaram algo ao estilo de Mozart. Logo descobri que se tratava de um projeto cultural. Os dois conjuntos pertencem ao Istituto Verdi. Ao longo da semana, em vários locais da cidade, em vários horários, há algum tipo de manifestação artística. Nesse momento, estou numa mesa ao ar livre, tomando uma birra alemã, assistindo um espetáculo de fantoche; não entendo niente, mas a criançada se diverte. Ah, já sei usar perfeitamente o prego, scusi e grazie! Em frente, um belo edifício renascentista; fico com pena de não ter trazido a máquina fotográfica.

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Texto escrito em 16 de junho de 1998

Estou em meio a uma viagem que teve início em São Paulo, com escalas em Madri e Roma. Em Roma tomei o trem para Rimini , com baldeação em Falconara. Essa parte foi relatada na crônica Pequena aventura em Roma.

www.weather-forecast.com/locationmaps/AnconaFalconaraINT.jpg


Logo depois da chegada em Falconara, por volta das 17 horas, tomei o trem para Rimini, seguindo um trajeto à margem do mar Mediterrâneo (mais precisamente, à margem do mar Adriático), cheio de estações de veraneio. Quando se vê essa região de perto, entende-se claramente porque os europeus ficam loucos pelas praias brasileiras. Foto extraída de http://www.provincia.ancona.it/

A ICAME, International Conference on the Applications of the Mössbauer Effect ( 10 a 16/09/95) foi, do ponto de vista organizacional, um desastre. Não vou discutir aqui o aspecto científico, que foi bastante bom, mas talvez não interesse aos leitores potenciais desses apontamentos. A cidade não tem, aparentemente, um local onde se possa organizar todo o evento. Assim, as conferências são apresentadas no belo Teatro Novelli; às 11 horas e às 17 horas temos intervalos para sucos e cafezinho acompanhados de biscoitos, servidos nos jardins do Grand Hotel, a 200 metros do teatro; os painéis são apresentados em outra dependência do Grand Hotel, entre 14 e 17 horas. O controle dos participantes é extremamente rígido, sendo impossível participar de qualquer evento (conferência, poster ou café) sem a comprovação de que está inscrito no congresso (500 dólares). Nas conferências e no salão dos painés, temos que portar nosso crachá, e para cada cafezinho recebemos um ticket, que devemos entregar a lindas recepcionistas, bem uniformizadas, na entrada do Grand Hotel. Sucos, biscoitos e cafezinho dispostos em duas grandes mesas, com bem uniformizados garçons para servir. Para isso temos que enfrentar uma fila enorme. Tudo muito sofisticado, mas pouco prático. Em Caxambu, onde organizamos um congresso para mais de 1000 pessoas (quase o triplo do que se tem aqui), nunca necessitamos de filas para o cafezinho. Simplesmente colocamos garrafas, copinhos, sucos e biscoitos em mesas próximas aos painéis, e cada um vai se servindo à vontade.

Rimini, a Amarcord de Fellini, é uma conhecida e agradabilíssima estação de veraneio, no mar Adriático, com calçadas no interior de alamedas de plátanos. Com 120 mil habitantes, a cidade me impressionou pelo número de livrarias. A enorme quantidade de bares e restaurantes não surpreende, em se tratando de uma cidade turística. Ficamos (o Lívio e eu) no Hotel Centrale Lido, um simpático 2 estrelas próximo ao Teatro Novelli. Nesses termos, ficamos bem acomodados. Alguns colegas ficaram bem distantes dos locais dos eventos. Nesses dias, um grupo de velhinhos e velhinhas, acompanhados por uma jovem (paramédida?), passam suas férias de verão no hotel. É uma festa isso aqui. Aliás, fizeram uma festa de arromba no último dia das férias, um dia antes da nossa partida. Chegamos ao hotel por volta das 11 horas e o baile corria solto. Nos convidaram e aceitamos tomar um vinho com bolo.

A família Malatesta, que dominou a cidade lá pelos idos do século 13, tinha, entre seus membros, gente que se distinguia pela crueldade, gente do mais refinado trato, e gente que se comportava de um extremo ao outro. Por exemplo, em A Divina Comédia , Dante conta como Gianni Malatesta matou sua esposa Francesca da Rimini e seu irmão Paolo Malatesta. A propósito, Tchaikovski escreveu uma famosa fantasia sinfônica intitulada Francesca da Rimini. Mais tarde, Sigismond Malatesta, que protegia os humanistas e encorajava as artes, mata suas três primeiras mulheres antes de se casar com a amante.

Sexta-feira, 15, dei por encerrada minha participação no congresso, que não tinha nada de interessante programado para esse dia. Logo cedo parti para Ravena, aceitando a sugestão do Lívio, que ama os famosos mosaicos dessa bela cidadezinha.

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Crônica publicada no jornal Primeira Mão
Ano II, n. 5, 1998

Nessa viagem, meu primeiro destino era Rimini, Itália, para participar de um congresso. Minha agente de viagem organizou tudo, e decidiu que eu deveria ir até Madrid, tomar outro avião até Roma, e de lá partir de trem para Rimini, uma agradabilíssima estação de veraneio no mar Adriático. Logo descobri que minha agente tinha rateado. O melhor teria sido ir de Madrid para Bolonha, e de lá para Rimini.

No avião para Roma, dois padres, com batina preta, sentaram-se ao meu lado. Simpáticos, disseram-me que a melhor opção para ir do aeroporto até a stazione Termini (como eles chama a estação central) era de treno (não, não é trenó, é trem) de modo que programei meu consciente e meu inconsciente para pegar il primo treno que partisse do aeroporto. Às nove e meia aterrissamos em Roma, mas entre apanhar a bagagem, que demorou a aparecer na esteira, fazer um pipi e descobri onde se pega il treno para Termini, lá se foram uns bons noventa minutos. Enfrentar italiano que não fala inglês nem francês, é duro!

Depois de atravessar uns bons cento e cinqüenta metros, do hall do aeroporto até a plataforma do trem, fiquei desolado ao perceber que não havia viv’alma para dar informações. De repente apareceu um servente que me indicou a plataforma. Eu deveria, pelo que entendi, pegar o trem para Tiburtino e depois para Termini. Agora, só faltava comprar o bilhete. Como eu, havia um monte de ignorantes em volta das bigleterias automáticas. “Aperto esse botão?”, dizia um deles em espanhol. “Não, aquele outro!”, respondia alguém em inglês. Tudo agonia de viajante vexado, pois bastou um pouco de calma para descobrir como tudo aquilo funcionava.

Apertei o botão para Termini; a tela indicou a tarifa: treze mil liras (1 dólar equivalia aproximadamente a 1.560,00 liras); coloquei duas notas de dez mil liras, e a máquina soltou o bilhete e 14 moedas de 500 liras. Maravilha! Bilhete na mão, o problema era não pegar o trem errado. Às 23 horas, isso seria uma tragédia!

Também mais perdidos que ganso em festa de pato, havia uma família que falava espanhol. Naquele corre-corre, nem percebi quantos eram. Havia um homem, uma mulher que falava muito, perguntava, tomava iniciativa; outra mulher, mais calma, e duas ou três crianças. Um trem, não sei para onde, estava estacionado na plataforma; um italiano, aparentemente um funcionário, tentou nos explicar algo, mas não entendemos absolutamente nada! A essa altura, parte da família já havia subido no trem; ficamos eu e o chefe da família, brigando com nossas malas para passar na porta que já estava fechando.

Trem em movimento, todo mundo lá dentro sem saber como chegar em Termini. Abandonando as bagagens no corredor, mas com o olho atento, corre um pra cada lado para ver se encontra alguém que fale uma língua compreensível. No carro seguinte, encontrei um jovem e simpático casal que falava um sofrível, mas compreensível francês. Ufa, que alívio! Me explicaram tudo direitinho. Aquele trem não ia até Termini! Que boa notícia, pensei. Deveríamos saltar em Ostiense e pegar o metrô até a estação central.

Quando retornei ao carro onde se encontrava minha bagagem, percebi que parte da família tinha caminhado até o carro seguinte, deixando a mulher agitada para trás. Um pouco mais aliviado, ensopado de suor, perguntei se ela falava francês (me agrada mais do que o espanhol). Sim, falava. Descobri que era uma professora de paleontologia da Universidade do Chile, que estava vindo de um congresso na China.

– Por que o resto do pessoal foi para o outro carro?, perguntei.
– Não sei”, respondeu.
– Vocês não estão juntos?.
– Não, é uma família chilena que conheci no vôo Paris-Roma.

Ela estava indo para uma conferência em Siene, e pernoitaria num hotel que conhecia, próximo à estação Termini. Descemos em Ostiense, mas não vimos a família chilena. Ou se enganaram, ou tomaram outra informação. Quase meia-noite, e não aparecia viv’alma para nos orientar naqueles corredores subterrâneos. Caminhamos um pouco e encontramos dois policiais que nos aconselharam a pegar um táxi, porque com o nosso monte de bagagem, não ia ser fácil apanhar o metrô. O primeiro “táxi” que encontramos era um furgão, com espaço para a bagagem de um avião. Acertamos o preço até Termini: vinte mil liras, com direito a passar nas proximidades do Coliseu.

No Hotel Siracuse, bem em frente à estação Termini, um dos funcionários pensou que estávamos juntos e começou a preencher a ficha de um apartamento duplo, enquanto discutíamos os preços com outro funcionário. Engano desfeito, cada um pagou, adiantado, oitenta mil liras por um single-room com toilete.
Por volta do meio-dia peguei o trem Roma-Ancona, com conexão para Rimini em Falconara.

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Texto escrito em 6 de abril de 2004
Fotos de Antônio do Vale

Areia Branca é como qualquer cidadezinha de qualquer parte do mundo. Com seus personagens típicos em quase tudo similares. Basta repassar a literatura e o cinema para verificarmos os pontos de contato comportamental entre sociedades tão diferentes. Minha referência neste assunto é o filme Amarcord, de Fellini. A Amarcord de Fellini está para Macatuba, a cidade imaginária de Tarcísio Gurgel, assim como Rimini está para Areia Branca.

Amarcord também tinha um farol, como o da praia de Upanema.

Em Amarcord os meninos sacanas incomodam o ceguinho que toca acordeon e roubam-lhe a bengala. Em Areia Branca a meninada traquina infernizava casca-de-ovo, um doidinho manso que adorava acompanhar procissão.


Em Amarcord os adolescentes masturbam-se em grupo, nos escombros de uma velha edificação. Em Areia Branca,… ah, se o Campo da Saudade falasse! Era este o nome do campo de futebol da cidade até o início dos anos setenta. Tinha esse nome porque era ao lado do cemitério.

Em Amarcord, Bischaine, o vendedor bobo-da-corte, mentia feito nosso Chico Pavão.

Recentemente revi Era uma vez no Oeste, de Sergio Leone. Uma edição em DVD, com comentários, entrevistas e depoimentos de pessoas envolvidas com o filme ou profissionais de cinema. Bernardo Bertolucci confessa que sentia-se o próprio caubói, depois que assistia um filme com John Wayne. Também éramos assim em Areia Branca. Havia casos até mais curiosos: um amigo estava convencido de que era a encarnação salineira de Jean-Paul Belmondo.

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