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Crônica publicada no jornal Primeira Mão
Ano II, n. 2, 1998

Quisera fosse o contrário: lembrar muito, e com cristalina nitidez. O sujeito sai do seu rincão e se larga pelo mundo afora, conhece gente, vida nova, vai trocando a casca, abandonando as raízes. Quando pára, descobre, com tristeza, que a memória é curta e turva. Alguns registros permanecem intactos, mas outros parecem uma nuvem mal-definida. Não esqueço os comícios e as passeatas de Manoel Avelino, ao som de(…) enquanto a minha vaquinha / tiver o couro e o osso / e puder com o chocalho / pendurado no pescoço / (…) / só deixo o meu Cariri, no último pau-de-arara (…).

Quando a bossa nova encaminhava-se para o sucesso, um trio (como se chamava?) embalava nossas festas em Areia Branca. Mirabô, Maninho e, se não me falha a memória, Zé Amorim; é isso mesmo? Lembro que o Mirabô gostava muito de cantar “chove chuva / chove sem parar (…)“, de Jorge Bem, mas não lembro das canções prediletas do trio. O que eu lembro é que a bossa nova nos alimentava de músicas para curtir ou para dançar agarradinho, mas o que agitava mesmo a tchurma, era o twist e, logo depois, o iê-iê-iê. Alguns se achavam tão bons dançarinos de twist, que resolveram cobrar por apresentações. A efêmera companhia de dança apresentou um único show, em Grossos. Eram duplas, apenas de rapazes – as meninas não tinham suficiente cara-de-pau! Não lembro nem quantas duplas tínhamos, nem os nomes das mesmas.

E as serenatas com radiola portátil? Como éramos ridículos! Éramos, vírgula, porque quando Mirabô & Cia resolvia fazer serenata, a história era outra! Não esqueço “Hoje é noite / de ficar sozinho / de cantar baixinho / pra ninguém notar / (..) / noite triste assim como esta / não quero passar nunca mais / todo mundo olhando pra gente / pensando que a gente / não se ama mais (…)“. Se não era bem essa a letra, é porque a memória é curta e turva.

Para dançar, rostinho colado, no centro do salão, nada comparava-se a “a taste of honey“, estranhos ao luar” (é esse mesmo o nome?), “tender is the night“, a irresistível “the shadow of your smile“, ao som da qual muitas juras e promessas de amor eterno devem ter sido feitas.

Quem esquece “capri c’est fini“, Mamas and the Papas com “sunday will never be the same” (não havia uma versão dessa música?), o grande sucesso “monday, monday” e a inesquecível “califórnia dreamin“? E Nat King Cole com “Mona Lisa“, Paul Anka com “you are my destiny“, (tocava muito no Cine São Raimundo e no Cine Miramar, antes das sessões). Também eram muito executadas, “Malaguenha” e “Granada“.


Antônio do Vale queria registrar uma enchente na Areia Branca dos anos 60, mas captou ao fundo, o Cine São Raimundo. À direita, o prédio original do Cine Miramar.

Mais tarde, já na década de 70, “Marie jolie” embalou corações e mentes de jovens apaixonados. Na sessão dor-de-cotovelo, biriteiros e mal-amados não podiam deixar de lado “negue“, “a volta do boêmio“, “risque“, “sentimental demais” e “brigas” (as duas últimas com o seresteirão Altemar Dutra).

Não pensem que de um parágrafo para o outro minha memória ficou prodigiosa. É que compro tudo que é gravação de música que fez minha cabeça na adolescência e juventude. Depois eu conto como em Paris eu fiz uma vendedora achar uma gravação de “Marie Jolie“. Agora, eu quero é ver o Mirabô aceitar a provocação e, qual uma batalha de repentistas, tomar o mote e fazer as correções que este arremedo de apontamentos históricos merece.

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