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Texto escrito em outubro de 1994.

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A cada final de outubro (a partir da última sexta-feira do mês), e durante a quinzena em que se realiza a Feira do Livro de Porto Alegre, assumo o compromisso, comigo mesmo, de escrever esta crônica, que jamais saiu da boa intenção para o papel. Agora, neste ano de 1994, quando se comemora o quadragésimo ano da sua existência, e no momento em que, em tão boa hora, a Câmara Rio-Grandense do Livro edita o magnífico trabalho de Paulo Betancur e Joaquim da Fonseca, A Feira do Livro de Porto Alegre. 40 anos de História, não posso deixar passar a oportunidade de expressar meus sentimentos quanto a este fantástico evento cultural. Com o livro à frente do meu teclado, a tarefa parece mais simples. Cenas e fatos, vistos e sabidos ao longo dos anos, estão aqui cristalizados nas belas ilustrações de Joaquim da Fonseca (o mesmo que ilustrou os livros de Luis Fernando Veríssimo, da série Traçando…[Porto Alegre, Paris, Nova Iorque, Roma]), nas fotos de vários autores, e no texto leve, fluente e agradável de Paulo Betancur. Para quem há anos acompanha a Feira, o livro de Paulo Betancur e Joaquim da Fonseca é como um caderno de apontamentos; cenas ali retratadas lembram outras por mim vividas.

Há uma foto do Mário Quintana, que ilustra bem o anonimato que ele gostava de curtir; à frente de várias barracas, entupidas de gente à busca daquele livro que interessava a cada um, caminha o nosso poeta maior; mãos trançadas à altura do peito, alguns papéis debaixo do braço. De uma pequena multidão de vinte pessoas, apenas três observavam o nosso anjo disfarçado de homem, como a ele costumava se referir Érico Veríssimo. Veio-me à lembrança a feira de 1982, quando fotografei Quintana autografando um livro para Clarisse, minha filha; lembro também que algumas vezes o segui naquela praça, apenas observando-o, no anonimato de um olhar discreto, como se fosse um circunstante eventual sob as sombras dos jacarandás, que tão apropriadamente adornam a Feira.

As setenta barracas criteriosamente distribuídas na Praça da Alfândega (uma área eqüivalente à da Praça André de Albuquerque , em Natal) delimitam, no período de realização da Feira, o espaço cultural privilegiado da capital gaúcha; o espaço para onde converge boa parte dos seus mais de um milhão de habitantes, enfrentando os inevitáveis dias de sol e chuva que acontecem na primavera. Durante dezessete dias por ano, uma pequena multidão vai à praça para festejar o livro, um civilizado acontecimento que orgulha a sociedade gaúcha. Obviamente que muita gente deve ir para comprar livros, mas tem gente que vai só para curtir o acontecimento, e muitos ali estão na simples busca de autógrafos, cujas sessões se dão embaixo de um grande toldo em forma de favo, ao lado do qual há uma barraca especial que vende apenas os livros que serão autografados.

O frequentador mais característico da Feira, é aquele que ataca os balaios, com saldos a preços irresistíveis; este ano comprava-se alentadas biografias de Gauguin, de Picasso, de Robespierre, de Toulouse-Lautrec, entre outros, por quatro reais cada uma. Qual uma ave de rapina, esse frequentador avança no primeiro dia da Feira para abocanhar as melhores ofertas, e depois vai bicando aos poucos, dia a dia, em busca de raridades, que porventura tenham escapado à primeira investida. Os melhores balaios são disputados a civilizados empurrões e chega prá lá.

A incomodação da chuva aqui em Porto Alegre não é comparável à dos temporais de Miami, que este ano teve de cancelar sua feira por causa do furacão Gordon, mas tem suscitado alguma discussão em torno da possibilidade de transferência do local da Feira, por exemplo, para o interior de um shopping center; dizem que os proponentes da idéia tiveram que fugir em debandada. Não é que os organizadores e patronos da Feira sejam extremistas da ortodoxia. Ano a ano modificações são introduzidas, mas ainda não passa pela cabeça de ninguém, trocar os jacarandás pelas escadas rolantes. Este ano, a Associação Rio-Grandense de Escritórios de Arquitetura patrocinou uma novidade para enfrentar as intempéries; trata-se de um enorme toldo transparente, colocado numa das alamedas, apresentando, em conjunto com as dez barracas experimentais, um belíssimo visual. É provável que no próximo ano a experiência se estenda às outras alamedas.

Outra modificação importante introduzida este ano, foi a transferência do bar, do centro da Feira para uma das laterais. A novidade não agradou àqueles que vão à praça apenas para curtir o evento com um copo de cerveja na mão. Para se ter uma idéia do acerto dessa decisão, e da inversão de valores que vinha ocorrendo, basta dizer que na área anteriormente ocupada pelo bar foram colocadas a barraca de informações, o favo dos autógrafos e a barraca de venda de livros a serem autografados. Tudo isso ficava na periferia da Feira! Introduzido na Feira no seu trigésimo aniversário (1984), o bar teve em Luis Fernando Veríssimo, o seu mais renomado padrinho, que numa crônica de 1985 o batizou de Bar Nota 7. Para quase todo mundo, o bar, que hoje chama-se Opinião, é imprescindível; da Feira não deve sair, mas o espaço do livro não deve ocupar.

Embora o enfoque apresentado até aqui tenha sido pessoal, grande parte do que foi dito está documentado no livro de Paulo Betancur e Joaquim da Fonseca, onde encontramos outras informações dignas de uma leitura criteriosa. Ao lado de estatísticas de vendas, e das modificações introduzidas ano a ano, tomamos conhecimentos de alguns fatos curiosos. Por exemplo, não há consenso quanto ao autor da idéia de se organizar essa feira. Para uns teria sido Ruy Diniz Netto, da Livraria e Editora Globo; para outros, o projeto inicial teria sido de Ernani Nerva. Talvez tenha pouca importância a paternidade da idéia, o que importa é que o passo decisivo para a realização da Feira em 1955, foi dado pelo Diretor-Secretário do extinto jornal Diário de Notícias, Say Marques, motivado por uma pequena feira de livros que vira na Cinelândia, Rio de Janeiro, em 1954. A Feira chegou, se instalou e venceu; já foi objeto de tese acadêmica, e é a única feira do gênero que vem funcionando há quarenta anos ininterruptos, no Brasil. Vem, desde muito tempo, funcionando como catalizadora da produção literária gaúcha, quer motivando a criação de novas editoras, quer estabelecendo um referencial para lançamentos de novas obras, ou servindo de exemplo para as mais de vinte cidades do interior que anualmente organizam suas feiras do livro. Certamente um estudo mais aprofundado demonstrará uma correlação positiva entre o atual nível (qualitativo e quantitativo) da produção literária gaúcha e a existência da Feira.

Certamente já estamos longe da época em que a desinformação alimentava o folclore da Feira, como aquela historinha do sujeito que chegou à barraca e perguntou: Tem O vermelho e O Negro do Stendhal?. Sim, temos O vermelho e o negro, respondeu o vendedor. Embrulhe O Vermelho. O Negro eu levo amanhã. Todavia, a busca por autógrafos ainda leva a rídiculos semelhantes. Certo dia presenciei uma cena ilustrativa. Uma senhora queria comprar um livro. Qual livro?, perguntou a vendedora. Qualquer um que venha a ser autografado agora, na sessão das cinco e meia, respondeu a inveterada leitora.

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Veja a matéria no sítio da TN: http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/ex-professor-da-ufrn-esta-entre-finalistas-do-pra-mio-jabuti/362308

Atribui-se a Malcolm X a frase:
“Se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo.”
E a Joseph Pulitzer algo similar:
“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma.”
É por um desses mecanismos que se vê brasileiro negro defendendo Trump, um declarado racista; brasileiros mestiços defendendo o nazismo, uma ideologia ariana, para a qual mestiços devem desaparecer da face da Terra, e beneficiário do bolsa-família votando contra o partido que a criou.
Como a essência do capitalismo é a acumulação do capital, sempre pela via da concentração de renda, essa faixa da população beneficiária dos programas sociais do PT logo se darão conta da roubada em que se meteram.

Nos vários ramos das ciências da natureza, cientistas utilizam estratégias reducionistas para aprofundar seus estudos. Fazem aproximações, descartando ou minimizando aspectos complicados, bem como aspectos comuns a todos os fenômenos relacionados. Ocupam-se prioritariamente de aspectos que diferenciam os vários fenômenos de determinada área. Esse tipo de estratégia economiza tempo e possibilita agilidade na busca de soluções. Dado o atual cenário da política brasileira, de conhecimento de todos que militam na área e de cientistas e estudiosos da ciência política, mas agora evidenciado para toda a sociedade pela operação lava jato, chegamos a um evidente impasse. Como está implícito na frase anterior, impasse há muito previsto pelos atores e estudiosos da cena política brasileira. Não se governa no Brasil sem chafurdar nos esgotos da corrupção. Pode-se até fazer política sem sujar as mãos, mas quem assim o faz, e eu conheço alguns políticos que assim procedem, não chega a ter êxito prolongado em cargos executivos.

O impasse atual vem do financiamento das campanhas eleitorais, que coloca na vala comum recursos limpos e recursos fraudulentos. Política, como se dizia antigamente, tem que ser feita no GOGÓ. É no discurso que o político deve convencer a comunidade do valor de seus ideais. Uma campanha eleitoral não deveria ser ofertada como se oferta um produto de beleza. Essa é uma questão ampla e complexa que não pode ser continuada aqui, porque fugiríamos do propósito inicial do artigo.

Afinal, qual é o impasse? O impasse é que, salvo os pequenos partidos de esquerda, sobretudo PSOL e PSTU, todos os outros estão, em menor ou maior grau, atolados nesse mar de lama da corrupção que veio à tona pela lava jato. O quê fazer? Prender todos os envolvidos? De onde sairão os novos ocupantes de cargos legislativos e executivos? Porque é disso que se trata neste momento. Se fizermos tábula rasa de nosso cenário político, não sobra um para contar a história. Pequenos exageros à parte, em função das exceções supra mencionadas, essa é a realidade.

Se juiz fosse, envolvido com este imbróglio, proporia o mecanismo reducionista da ciência. E faço esta sugestão sem qualquer parti pris, apenas obedecendo preceitos da lógica cartesiana. Ou seja, não sei, salvo os casos divulgados pela imprensa, que partidos ou políticos seriam prejudicados.

O mecanismo reducionista que proponho exige uma relativização dos casos de corrupção, uma espécie de categorização, ou como se diz na ciência, uma taxionomia da corrupção política. A expressão é bonita, mas o que está por trás é muito feio. Existem claramente três categorias (o verbo ROUBAR é usado aqui para representar genericamente atos de corrupção. Não se refere necessariamente a um roubo explícito. Pode significar, por exemplo, o pagamento de materiais de propaganda eleitoral em troca de um benefício legislativo, como uma lei que favoreça determinado segmento empresarial):

  1. O político permite que seus aliados roubem para obter maioria nas casas legislativas;
  2. O político rouba para alimentar suas estratégias de propaganda eleitoral;
  3. O político rouba para seu enriquecimento.

A categoria (1) tem duas nuanças. A maioria legislativa pode ser usada para a aprovação de políticas públicas de inclusão social (bolsa família, minha casa minha vida, etc), ou para o benefício do capital (flexibilização das leis trabalhistas, etc). As duas alternativas fazem parte do jogo político, da luta ideológica, é a essência da disputa eleitoral. É a razão da vida civilizada.

A categoria (2) é apenas o desvirtuamento da categoria (1).

O problema ético mais sério e socialmente perverso é o representado pela categoria (3). O político enquadrado nesta categoria não está interessado em beneficiar a sociedade. É para o seu proveito que ele mergulha nos esgotos da corrupção. O mecanismo de salvaguarda mais comum utilizado por esta categoria é a transferência de recursos financeiros para os paraísos fiscais.

Então, fica evidente que se tivermos que punir sem destruir todo o sistema, teremos que concentrar a punição naqueles políticos que mantêm contas secretas no exterior.

Para usar o estilo da suprema corte, finalizo dizendo:

Este é o meu parecer, com a data venia de intelectuais e puristas da ciência política. Sem as devidas citações a Charles Montesquieu, Jean-Jacques Rosseau, John Locke e Adam Smith, fico com a tosca reflexão nascida de minha vivência e simplista intuição.

A história está se repetindo como farsa, para se transformar em tragédia. É o inverso do que dizia aquele barbudo no século 19. Quem nesses últimos tempos tem usado camisetas com mãos de quatro dedos e publicado textos com ultrajantes referências a políticos do PT, sem ter sido juridicamente incomodado, vai saber o que é viver sob regime ditatorial, sem militares no governo. Apenas com a prática antidemocrática de criminalizar a crítica política, mesmo que feita em termos respeitosos. Prevejo o momento em que alguém será processado simplesmente por repetir texto publicado na mídia criticando algum ocupante de cargo público. Quem viver verá.

Preliminares
  1. Atribui-se a Paracelso, a frase: “A diferença entre um remédio e um veneno está só na dosagem”.
  2. Na Ciranda da Bailarina (https://www.youtube.com/watch?v=zA1LGtQaqPA), Chico Buarque e Edu Lobo dizem: “Procurando bem, todo mundo tem pereba”.
  3. Os inocentes úteis, pouco letrados na ciência política batem panelas esbravejando o mantra: a corrupção é do PT, lava jato neles.
  4. O mantra leva à tomada do poder por um governo com 7 ministros envolvidos na mesma lava jato.
  5. A operação pretende replicar a famosa operação mãos limpas, que na Itália levou Berlusconi ao comando político, e que logo depois foi condenado pelas mesmas práticas pelas eram acusados os governantes anteriores.
Preste atenção
  1. Olhe ao seu lado, inclua amigos e parentes em seu olhar, quem você acha que não tem uma verruguinha que seja de mal comportamento ético? Uma furada de fila aqui e acolá, um benefício burocrático pela ação de um amigo importante, um artifício para anulação de uma má nota do filho na escola?
  2. Quem tem o conhecimento que tem, não poderia ter a irresponsabilidade de destruir todo o sistema político de uma tacada só.
  3. O sistema que o substitui está impregnado dos mesmos defeitos, porque o defeito não é do sistema político, é da sociedade. Uma pequena verruguinha do eleitor transforma-se em câncer quando este chega ao poder.
Providências
  1. Se forem sérios os propósitos de combate à corrupção, só há uma maneira viável, e de longo prazo, EDUCAÇÃO, DA ESCOLA BÁSICA À UNIVERSIDADE, BASEADA EM COMPORTAMENTO ÉTICO.
  2. O que se denomina COMPORTAMENTO ÉTICO, precisa ser definido pela sociedade, ou seja, pais, alunos e professores em debate permanente.
  3. No ínterim, entre o atual cenário de uma sociedade patrimonialista e a utopia, que se pretende realizável, há que se seguir à risca os ensinamentos de Paracelso: cuidado com o dose do remédio. Se for excessiva mata o paciente.

Eu morava em Porto Alegre quando o PT foi fundado. Ao lado do prédio onde morava havia uma república de estudantes, onde se reunia um grupo para discutir a criação do partido. Acompanhei toda essa história, a campanha de Olívio Dutra para o Senado, sempre votei no Henrique Fontana para deputado federal, Votei no Fortunati para deputado estadual e no Adeli Cell para vereador. Jamais ouvi falar ou prestei atenção no Sr. Alessandro Teixeira, nem antes e nem nos tempos recentes. Seria uma espécie de Forrest Gamp? Por tudo que vi hoje na imprensa, jamais o escolheria para meu auxiliar, se soubesse de tudo que se veicula agora. Sou muito conservador na compostura. Esposa de ministro que vai na sua posse com os trajes que vimos nos fotos recém publicadas, não é admissível. Seguindo um compromisso entre lealdade, competência e compostura deve haver no PT uma centena de candidatos que poderiam ocupar os cargos que o Sr. Alessandro Teixeira ocupou. Acho que a Presidente deve substitui-lo imediatamente. Todavia, não se deve fazer disso terra arrasada. Há que se distinguir a ideologia de inclusão social do PT e dos partidos de esquerda, da fragilidade política em que se encontra o governo Dilma. Desculpem-me pela gabolice, mas acho que isso é o desfecho d’O paradoxo da esquerda, que superficialmente esbocei em artigo de 2014.

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