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Posts Tagged ‘grenoble’

Já estou me preparando para a volta, que terá início no dia 2 de dezembro. Fico abismado com a quantidade de treco que fui juntando nesses quase três meses fora de casa. Quantos quilos de excesso deverei pagar? Não quero nem pensar nisso!

Hoje, primeiro de dezembro, deixo o apartamento de Madame Yvette Saunieres e dormirei na casa de Marc/Huguette Bogé. Jantamos na companhia de Luis e Carla. Catherine apareceu para se despedir. Huguette e Marc, que conhecem e adoram o Brasil, juntamente com a filha, Catherine, são amigos queridíssimos que temos em Grenoble.

Acabei de embarcar minha bagagem no aeroporto Satolas (Lyon). Setenta quilos e muitas complicações, a começar pela inexistência do telex da Varig autorizando os 43 quilos, em virtude de convênio com o CNPq. Discute daqui, discute dali, resolvi embarcar a bagagem até o Charles de Gaulle, ao invés de até o Rio, como pretendia. Paguei 40 quilos de excesso, correspondente ao trecho Lyon-Paris. Embarcar a bagagem direto para o Rio teria a grande vantagem de circular no aeroporto de Paris com as mãos quase livres. Agora, terei que enfrentar o ônibus entre uma plataforma e outra do Charles de Gaulle, com cinco (eu disse, cinco!) volumes: duas malas (enormes), um porta-sobretudo, uma sacola (enorme), uma valise de cabine e uma sacola de mão. Fiquei com a valise de cabine e a sacola de mão, mas na subida do avião tive que deixar a valise de cabine (grande demais para os aviões domésticos) no compartimento especial de bagagem. Recebi de volta, ao lado do avião, em Paris.

Na esteira, ficou faltando a grande sacola (nova, mas muito ordinária) que comprei em Grenoble e que usei para colocar sapatos, roupa suja, e coisas sem grande valor; dezessete quilos de treco velho! Enquanto aguardava, comecei um papo com uma senhora que estava ao lado, uma representante comercial que ia para Buenos Aires, via Rio. Foi a salvação da lavoura . Ficou ali até que eu terminasse de fazer o registro da bagagem extraviada, e depois me ajudou a transportar a bagagem até o guichet da Varig. Com o extravio do sacolão, restaram 53 quilos. Felizmente consegui comprovar que era bolsista do CNPq, tendo portanto, o direito a 43 quilos livres e de pagar apenas a metade do excesso.

Embarque para o Rio na hora prevista, 22h20. Disponho de cinco poltronas “só para mim”, concluí corretamente; logo que a tripulação iniciou o procedimento de decolagem, estendi cobertores em três poltronas e viajei confortavelmente. Nas poltronas da frente, percebo um casal, representante daquela classe de capitão de corveta de araque . Ouço a mulher dizer: “Ah, sempre trago alguma coisinha para beliscar. Não suporto essa comida de avião”. Esse é o tipo de comentário revelador. Ora, o chef do avião não é nenhum Paul Bocuse, mas a comida também não é nenhum pouco igual a um PF de restaurante estudantil. Depois daquele comentário, resolvi dar uma de xereta . Quando o jantar foi servido, não tirei os olhos da dondoca (discretamente!). Não sobrou um grãozinho de ervilha para contar a história. Ela começou pelo pãozinho com manteiga, avançou na salada, devorou o peito de galinha com ervilha, sorveu o refrigerante e degustou a sobremesa! Para quem não suportava comida de avião, isso deve ter sido um sacrifício enorme!

No Galeão, minha bagagem provoca exclamações do tipo “nossa!”. Passo na alfândega e logo me dirijo a um dos funcionários que me pergunta: “Tem algo a declarar?”. “Não, respondo, mas com uma bagagem dessa todo mundo desconfia, de modo que pode abrir”. “Pode passar”, respondeu o simpático policial.

De zero graus para quase quarenta, do vinho para a cerveja, mas, sobretudo, da solidão para o afago da família. Cheguei!

Quatro dias depois chegou, intacta, minha sacola.

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Texto revisado em 22 de agosto de 1998

No trem Ravena-Bolonha, procedente de Varsóvia, gente humilde que varou a noite naquelas poltronas de 2a classe. Um forte e insuportável cheiro de urina nos corredores. Com o pensamento viajo para longe; penso em Areia Branca, Natal, Porto Alegre, mas o mal cheiro não arreda o pé. Felizmente o trajeto é curto.

Em população, Bolonha é bem menor do que Natal, mas o maior desenvolvimento econômico é visível. Na estação de trem peguei um ônibus para o aeroporto Marconi, que é bem maior do que o nosso Augusto Severo, mas não tem um relógio para nos orientar, e o bar é menor do que o nosso. Leio, num jornal local (il Resto del Carlino) que Dirceuzinho (ex-ponta direita da seleção brasileira) morreu num desastre automobilístico no Rio. Pela matéria, percebe-se o cartaz que ele tinha por aqui.

Fizemos o trecho Bolonha-Milão num desses aviões pequenos que os europeus costumam usar nas viagens domésticas. Um pouco de balanço, mas nada grave! Milão tem uma população assim como a de Porto Alegre, mas um aeroporto quase igual ao Galeão, com um enorme free shop. Fim de verão, aeroportos abarrotados de gente voltando das férias; vôos atrasados, frio na espinha. Chegar em Lyon tarde da noite, para quem vai para Grenoble é um horror! Não deu outra, o vôo só foi sair depois das 22 horas, chegando em Lyon depois das 23 horas. Quando cheguei na plataforma de ônibus, perdi o último que saía para Grenoble. Um estudante na mesma situação, propôs dividirmos um táxi; quinhentos francos para cada um. Uma nota preta!

No dia seguinte, um domingo, dei uma volta pelo centre ville para matar a saudade: praça Victor Hugo, Praça Grenettepraça Grenette, rua Félix Poulat, boulevard Gambetta, avenida Alsace-Lorraine, … “Grenoble” que o visitante menos avisado percebe, não é Grenoble; é a região grenobloise, um conjunto com mais de quinze cidades, de tal modo interligadas que mais parecem bairros de Grenoble. Essa região, com uma população da ordem de quinhentos mil habitantes, tem maravilhosos recantos montanhosos e estações de esqui.

Não dá para descrever aqui, com razoável detalhe, toda a região grenoblense, mas talvez seja interessante destacar alguns aspectos histórico-turísticos. Por exemplo, pouca gente sabe que a Revolução Francesa nasceu numa reunião no castelo de Vizille (uma cidadezinha a 15 km de Grenoble), no dia 21 de julho de 1788; portanto, um ano antes da data que se comemora.Castelo de Vizille

Curaro, uma pequena vila gaulesa, transforma-se em Grenoble depois de conquistada pelos romanos, bem antes do nascimento de Cristo. Cidade natal de Stendhal, autor de Le Rouge et le noir, Grenoble é também a cidade por onde passou muita gente importante. Em 1768, Jean-Jacques Rousseau tentou repousar aqui anonimamente, com o pseudônimo de Monsieur Renon, mas foi logo reconhecido, e bem acolhido e paparicado pela população, então mais do que provinciana. Hector Berlioz, na primeira metade do século dezenove, teve aqui uma ardente e não correspondida paixão.

O Vercors, uma bela região montanhosa ao lado de Grenoble, e que teve trágico e importante papel na resistência francesa durante a segunda guerra mundial, é hoje um ponto turístico imperdível, com algumas estações de esqui, várias grutas e verdadeiros túneis naturais, que os franceses chamam de gargantas (gorges). garganta bourne, no vercorsUm passeio, promenade, como dizem os franceses, numa manhã de outono em Villard de Lans, é algo deslumbrante. A primavera tem uma incontestável beleza visual, mas o bem-estar de uma amena manhã outonal é incomparável. Villard de Lans é a capital turística do Vercors.

Nos tempos modernos, Grenoble se destaca pela sua vocação para os empreendimentos tecnológicos. Foi aqui que, na segunda metade do século passado, se descobriu a energia hidroelétrica (houille blanche), e é aqui que acabou de ser construído o sincrotron mais potente do mundo, um monumental equipamento para pesquisas em ciências dos materiais. Depois de Paris, Grenoble é o pólo técnico-científico mais importante da França.

Aproveito a oportunidade de estar em Grenoble para fazer uma visita a Annecy, situada ao norte, na direção da Suiça. Na verdade, mais próxima de Genebra do que de Grenoble. Já não sei mais quantas vezes visitei essa aprazível cidadezinha. Venho aqui só para perambular pelas suas ruelas, e em volta do seu azulado lago. Em companhia de Luis e Carla, um casal de amigos paulistas, festejo meu aniversário neste 7 de outubro, mesmo dia em que os colonos da região comemoram o retour des alpages, uma festa que enche a cidade de visitantes para saborear a comida savoyard, comprar produtos artesanais e assistir às manifestações culturais (canto e dança) desse simpático povo.

 

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